Garoa

Praça cheia de árvores altas à volta, num sábado desses que cai uma chuva fininha, quase sem vontade. Pouca gente na rua e eu e uma menina andando por lá e conversando sobre a vida.

A praça dá a impressão de ser uma base de uma pirâmide maia incompleta, já antiga, com escadarias cheias de limo e de fraturas. Pessoas olhando tótens com informações sobre a história do lugar, e guardas em suas cabines observando as pessoas. Ela começa:

  • A gente podia melhorar isso. Não queria que tivesse chegado nesse ponto, nesse marasmo.

  • Nem eu.

  • Mas como a gente melhora isso? Eu sei que você pode.

Parecia ser a hora de dizer que eu não tava muito afim de remoer passado. Mas ela foi mais rápida.

  • Preciso ir.

  • Deixa eu te levar até o ponto.

  • Não… não precisa…

Como sempre tinha aquela sensação de que ela não queria ser “ajudada”, mas já não via razão pra ela achar que isso era qualquer ajuda além de consideração. Nunca foi ajuda.

Vou com ela ao ponto, em silêncio. O ônibus chega, acordo.

Vermelho pt.1

Set de superprodução do final dos anos 60, talvez início de 70, bem no estilo de 2001 de Kubrick. Essa cena longa se passava num globo de metal gigante, giratório, no qual andavam em cima os atores e os ajudantes, e para abrigar o set muito espaço era necessário, então ele se localizava em um galpão alugado de uma fábrica de chapas de alumínio, que funcionava ainda, mesmo que os equipamentos continuassem a funcionar.

O globo de metal tinha um padrão pintado no estilo de um globo terrestre de plástico, com regiões em azul claro e outras em cor de creme, e os atores que ficavam em pé em cima do globo tinham calçados com imãs fortes o suficientes para se manterem em pé mesmo nos lados do globo. Filmado um take longo da cena, os atores descansavam enfim, após o anúncio do diretor. Uma mulher, vestida de vermelho, quis correr por qualquer motivo ao redor do globo, e na corrida tropeça e cai do globo em cima de uma das prensas de chapa de alumínio que estavam funcionando.

De lá da prensa saiu muito mais vermelho que só o vestido dela.

Atônito, acordo.

Home Office

Com um quarto vago no apartamento, precisávamos encontrar alguém para ocupá-lo. Colocar um anúncio no jornal se mostrou bastante eficiente, já que logo de noite chegaram alguns candidatos, e a escolha foi fácil, o rapaz tímido que veio pra cá pra cidade pra continuar os estudos e trabalhar teria a vaga.

Dia seguinte ele já veio com uma picape com as coisas dele, já pra se instalar e começar a trabalhar, mas a coisa estranha é que não tinha armário, cama, roupas ou coisas do tipo, mas sim umas mesas de escritório, cadeiras, computadores e aparelhos de fax, PABX e bugingangas corporativas. Olhamos com cara de “que porcaria é essa?” mas esperamos vir mais mudança, realmente com as coisas dele. O rapaz instalou as mesas na sala, no corredor, na cozinha e no quarto dele, e procedeu por entregar papéis de contrato de trabalho pros seus novos hospedeiros (nós, no caso), exigindo carteira de trabalho, fotos 3x4, comprovantes escolares e de residência (mesmo que fosse óbvio que éramos nós que morávamos lá até então).

A noite passou, todos dormiam desconfortavelmente enquanto o rapaz fazia um processo de seleção com outras pessoas que respondiam a um anúncio prontamente colocado no mesmo jornal. O segundo dia passou com uma enfadonha introdução à missão da empresa que o cara propunha, que tivemos que assistir embora tivéssemos já nossos próprios empregos em outros lugares. Camille e eu dissemos que tínhamos que ir trabalhar, e fomos repreendidos, com o aviso de que o nosso emprego era aqui, e que se já começaria assim o trabalho teríamos cobranças mais pesadas.

Cheguei no trabalho muito atrasado, e contei o caso estranho para meus colegas, que pra minha surpresa disseram que acharam interessante o anúncio no jornal e que já marcaram entrevista para lá no dia seguinte, inclusive o gerente. Volto pra casa estranhando tudo e todos, e abro a porta para ver uma pequena confraternização de escritório. Corro pro meu quarto, onde estavam Marco e Felipe me esperando pra combinar como mandar esse cara pra fora daqui. O plano era simples, botar essas mesas todas na rua e expulsar o cara e qualquer um que se opuser a tal.

Dia seguinte eu, Felipe, Marco e Camille acordamos na madrugada pra prosseguir com o plano, esvaziávamos as mesas e as carregávamos para fora - e pro nosso desespero, surgiam novas mesas nos lugares que estavam vagos. Fomos pegos de surpresa pelo meu (até-então-, ou pré-home-office-) gerente que com seu tique-pigarro usual nos disse que não haveria outra chance.

Foi um longo dia de não fazer nada no trabalho.

Chegava perto das 18h, pensei, “ao menos meu quarto tá livre disso tudo, acabando o ‘expediente’ me tranco lá e pronto.” Passou-se uma semana e meia de ócio completo na frente de máquinas de escrever e telefones que tocavam toda hora mas que ninguém atendia.

Chega uma demanda de um novo cliente da empresa que todos negam que seriam capazes de executar a tempo, e antes que eu pudesse dizer que não o faria, o tal gerente conta com sorriso escroto que já me viu fazer coisa mais complicada em menos tempo.

O trabalho durou dois dias e duas noites, até que meu computador pifou. O rapaz, agora superintendente de fiscalização, disse que imediatamente trocaria meu computador, mas que eu deveria almoçar com ele em um restaurante perto daqui de casa. O almoço foi uma cabeça de boi da qual, segundo o superintendente, eu deveria comer o cérebro, mas ao abrir a tal cabeça noto que o cérebro virou uma pasta branca. Cansado, com fome e sono, chego em casa, vou pro meu quarto, fecho a porta, pra logo depois a secretária bater na porta e me avisar que o computador chegou, uma torre grande que não cabe na mesa - e assim já estava avisado que iriam colocá-lo no meu quarto.

Acordo.

Crash! Boom! Bang!

Tou na arquibancada de uma corrida de carros estilo fórmula (devia ser Formula 1 mesmo, o circuito era um desses de rua europeus, à la Mônaco), com uns amigos. Os carros dão algumas voltas e então começa o maior festival de batidas e destroços de carros que já vi (ou imaginei). Uma amiga minha olha pra mim com cara de preocupada e pergunta: “é você que tá fazendo isso? te conheço, você pode fazer isso tudo acabar” mas antes de poder dizer que não eu acordo.

Teatro Mágico

Espetáculo no teatro, uma peça com participação extensiva do público. Tão extensiva que não havia ator no palco, e todos os expectadores eram os atores, que participavam de uma intrincada trama de histórias. A peça termina, todos batem palmas e saem devagar do teatro, conversando entre si.

Chegando perto da porta as pessoas começam a correr desenfreadamente, e o caminho na frente do teatro, pavimentado por paralelepípedos, desafiava sapatos e pés, pois estava molhado. Mas isso não impediu as pessoas de correrem nesse caminho, uma subida ampla que circundava o teatro. Olho pra cima, é noite, mas o tempo é de que acabou a chuva faz poucos minutos.

No meio da correria, encontro uma amiga da faculdade, que me pergunta se eu consegui a bolsa de estudos. Titubeio e… acordo.

A sucker for you

Era uma base secreta nos porões do prédio da Reitoria da UFRJ, na ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Após analisar um mapa cuidadosamente ilustrado (e estiloso, por sinal, com vários detalhes de arabescos e composição de cor bem harmoniosa) indicando as entradas e saidas da mesma base secreta, com escadas de bombeiro cor branca e andares e andares em um complexo ziguezague, sigo em direção a um dos pontos assinalados como entradas, levanto um tampo que está no lugar e entro.

Lá dentro, encontro umas mulheres trabalhando em vários computadores e mesas, em algo que supostamente é importante. Notam minha presença, acenam pra mim, e uma menina aponta para um computador que está próximo de mim, com uma tela antiga de fósforo. Eu sei o que tenho que fazer.

Acesso o terminal do computador, digito códigos, funciona que é uma beleza, apesar do aspecto. Logo, uma segunda menina chega perto e vê a tela por cima do meu ombro: loira, cabelos lisos, olhos castanhos. Ela cheira meu cangote, me abraça e me beija na boca - mas o beijo, no começo bastante enamorado, em pouco tempo pode ser descrito como botar a boca num aspirador de pó. Fico então um pouco atordoado depois do beijo, mas logo a sensação passa.

Acordo.

Kung-fu

Uma torre com uma escadaria espiral e um vão central, todos descendo a escadaria sob comando do mestre, conhecido mundialmente por juntar kung-fu com le parkour. Não vejo o mestre em um primeiro momento, mas várias pessoas treinam descer a torre pela parede ao invés das escadas, com certa facilidade. Tento por minha vez e vejo que é bem possível: corro alguns lances de escadas e pulo de modo a atingir a parede com uma certa inércia, e de lá só manter a velocidade.

Alguns andares abaixo encontro o mestre, um senhor com mais de 90 anos, usando uma túnica dessas de monges budistas e um cajado, cabelos inteiramente brancos, descendo calmamente as escadas e rodeado de discípulos, que pedem que ele demonstre suas habilidades. Após algum tempo, os discípulos abrem espaço, e ele sem dificuldades pega velocidade para subir as escadas, pula com a ajuda do cajado e sobe algumas dezenas de lances de degraus, para a felicidade dos discípulos, que batem palmas fervorosas.

Tento subir a parede do mesmo jeito (obviamente sem a ajuda do cajado). Não foi difícil. Subo até o fim da torre desse jeito, o que foi bem rápido, e da porta que estava lá em cima segue uma estrada, que passa ao lado de um estádio de futebol onde o jogo Botafogo X Flamengo estava acontecendo. A estrada tinha várias passarelas por onde as pessoas se encaminhavam para o jogo.

Acordo.

Cinema Mudo

Estava numa cidade, de manhã, num cruzamento movimentado. Cinema ao ar livre, várias pessoas sentadas no chão, na tela passava Matrix Revolutions por algum motivo. A tela do cinema estava afixada num pilar de um dos viadutos que passavam sobre nossas cabeças. Eu, em pé, com uma mochila grande, verde, dessas de acampamento. Uma menina estava logo à minha frente, com uma blusa de manga comprida preta com zipper branco, e uma saia azul-escuro. Essa mesma menina pede que eu pegue a calcinha dela, que estava logo ao meu lado esquerdo - uma calcinha de renda, roxa, e assim que entrego a calcinha, ela se vira pra mim e a veste e exibe orgulhosamente e libidinosamente.

Uns segundos depois estou andando, um guarda me para no meio da rua, pergunta se posso lhe responder algumas coisas, com um ar mal-encarado. Digo que sim, e ele pergunta prontamente se eu poderia explicar o filme, pois ele não entendeu nada. Inicio a explicação.

Acordo.

Detergente

Supermercado sofisticado, vários andares e portas automáticas de vidro, paredes de pedra. Estou como atendente da seção de produtos de limpeza, no 2º andar, demonstrando um pequeno robô, um tratorzinho, que limpa casas inteiras. Em seu modo controlável, é possível utilizar um joystick, fornecido no kit, para controlá-lo e faço um pequeno jogo com o tratorzinho e uma bolinha, em cima de uma mesa.

Gerente se aproxima e não está contente com as vendas e a demora para fecharmos o supermercado, cujo horário de funcionamento já acabou. Resmunga algo, mas alguns segundos depois uma cliente aparentemente importante, pedindo um detergente de côco. O gerente, visivelmente embaraçado por não saber onde se encontra o detergente (que por surpresa não se encontra na seção de limpeza) me pergunta se posso encontrá-lo. Digo que posso, e vou logo em seguida.

Desço ao térreo e noto que estou vestido de nada além de uma cueca cor vinho. Pego uma garrafa de detergente, aviso que a tal cliente importante está presente e subo de volta. Entrego o detergente e a cliente demonstra alívio por finalmente ter o detergente.

Acordo.

Sonhei que sonhei com você.

No quarto, encostado na cabeceira da cama, conversando com uma menina. O assunto tava bem agradável, e depois de algum tempo ela resolve encostar na também na cabeceira da cama com a cabeça no meu ombro. Faço um cafuné nela, ela gosta, faz uma carinha adorável e dorme no meu ombro. Daí percebo que tou num sonho. Fico mais um tempo fazendo cafuné.

Acordo. Tou deitado, na cama, pensando chateado no fato de ter sido só um sonho. Tá frio. Encolho mais nas cobertas, penso no que aconteceu e percebo que de novo tou num sonho.

Acordo.